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VIOLÊNCIA POLÍTICA: CHUMBO É LÍNGUA FRANCA NA HISTÓRIA POLÍTICA DO PAÍS

De Angela Alonso
Da Folha
O julgamento político de 2018 eclipsou o aniversário do golpe de Estado de 1964. Só se fala —pró e contra— de Lula e STF. Talvez porque, em tempos de quebra de regras e louvação à ditadura, os eventos de 1964 pouco destoam.
Agora, como então, a batalha de ideias se prolonga em porretadas. Apesar da mania de nos definirmos como pacíficos, a violência é marca brasileira. Está em toda parte e não se ausentaria da política.
Comparece de muitas formas. As brandas são simbólicas: Bolsonaro com bigode de Hitler, Temer vestido de vampiro, Lula de Pixuleco. E há vias de fato. Os manifestantes do protesto que não houve em Medianeira (PR) tinham esterco para lançar no adversário. Seus vizinhos mais bem-sucedidos executaram ovadas, chicoteadas, pedradas e tiros.
Quando os projéteis atingiram Marielle e o ônibus de Lula, até Temer se indignou. Ninguém sabe ainda quem puxou os gatilhos, mas todo mundo tem explicação no bolso do colete à prova de balas. A mais comum é a da radicalização política. Estamos polarizados e intolerantes e por isso começamos a atirar nos antagonistas. Mas basta encompridar o olho para trás para ver que não é de agora que nos matamos. O chumbo é língua franca na história política brasileira.
Veja-se o ocorrido em 5 de novembro de 1897. Prudente de Moraes recepcionava militares que tinham dizimado seguidores de Antonio Conselheiro. Era festa, até que um soldado puxou o gatilho. Errou o presidente da República, mas, sem perder a viagem, apunhalou o ministro da Guerra, chefe do último ataque a Canudos. O agressor era da oposição ligada ao ex-presidente Floriano Peixoto.
Luta política à mão armada, portanto. Mas, como morreu o ministro e salvou-se o chefe de Estado, o caso entrou no rol dos muitos episódios de violência política que livros escolares omitem. Omitem também porque o sangue amolece o barro de que são feitos os pés da autoimagem nacional, o povo ordeiro e as elites conciliadoras.
No tempo espremido entre dois golpes de Estado, o que findou a monarquia, em 1889, e o que interrompeu a democracia, em 1964, acumulam-se 20 confrontos políticos nacionais violentos que comungam três traços: o governo federal se envolveu, as Forças Armadas tomaram lado e um ou mais participantes recorreu à violência.
Esses casos —que estão em livro que coorganizei com Heloísa Espada, "Conflitos: Fotografia e Violência Política no Brasil" (IMS, 2017)— exibem a crueldade à brasileira no trato de inimigos políticos.
Os confrontos convergem no uso da força bruta, mas se repartem quanto aos atores principais. Os protagonistas são estratos sociais baixos quando há intervenções do Estado em seu cotidiano, território, corpo ou bolso. Aí surgem revoltas rurais (vide Canudos, 1896-7) ou urbanas (como a Revolta da Vacina, 1904).
No outro tipo, o palco é de elites sociais desgostosas com o rumo do governo. Bons lugares para resolver tais disputas são as urnas e os tribunais. Mas, como se viu na reeleição de Dilma, contestada pelo derrotado, e no recente vaivém do STF, nem sempre meios eleitorais e legais dirimem conflitos. É aí que elites sociais "ordeiras" podem ir não só às ruas como às armas.
Na guerra civil dos anos 1890 —conhecida como Revolta Federalista e Revolta da Armada—, morreram só no Sul do país 10 mil pessoas, cerca de mil degoladas. Confrontos armados entre elites se repetiram em São Paulo em 1924 e 1932, e foi com armas que se derrubou o governo Jango. Ora a arraia miúda emerge, ora os tubarões se mordem. A violência é o traço compartilhado.
A política à base de porrete é velha de guerra e não se acanha. Em 1964, o sindicalista Gregório Bezerra foi preso, amarrado pelo pescoço e arrastado pelo Recife. Quatro anos depois, o estudante Edson Luís morreu de tiro da Polícia Militar em protesto contra o preço da comida. Durante a ditadura, a série se avolumou —basta ler os relatórios da Comissão da Verdade.
E não acabou com a redemocratização. Faltam estatísticas consolidadas para todos os tipos de violência política, mas os 1.722 assassinatos em conflitos no campo de 1985 a 2016 (segundo o relatório da Comissão Pastoral da Terra de 2016) denotam sua persistência.
Fazer política é operação de risco. No Brasil, há risco de perder a eleição, a liberdade (a voga é cadeia) e a vida. E, generais alertaram esta semana, quem também anda sob risco é a democracia.
Angela Alonso
É professora do departamento de sociologia da USP e preside o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.

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