Por François Silvestre
Cada pessoa é uma consciência universal. Limitada pelo seu caráter, sua instrução e suas conveniências.
E cada um carrega na finitude dos seus limites a dimensão infinita de suas pretensões. Tudo contido num invólucro de sistema, pela multiplicidade; de totum, pela individualidade e de quantum, pela energia. Da mesma forma como Teilhard de Chardin expôs a infinitude universal.
O indivíduo é finito na vida, no alcance, na visão. Mas é infinito na pretensão, nos sonhos e na autoavaliação. Seu universo íntimo, muitas vezes inconfessável, comporta todas as estrelas e ainda sobra espaço para reinventar conquistas alem da compleição espacial.
Talvez por isso, a fugir de sua insignificância, o indivíduo engana-se propositadamente da sua mortalidade. Ao crer no espírito, faz muito mais um exercício de vaidade e soberba do que um gesto de contrição.
Tem uma alma porque é importante e não pode morrer. Mas faz uma concessão.
Um ser superior criou a todos e todos, por ele, serão julgados. E esse ser superior é o guardião de cada um. E cada um se julga o protegido preferencial.
Em todos os lugares e em todos os credos. Na Gurguéia do Piauí, num vilarejo do Nepal ou num edifício dos Emirados Árabes. Claro que na Gurguéia haja mais fantasmas e aparições, pois as almas têm mais tempo livres e mais gente desocupada para vê-las. No Nepal, também. Já nos Emirados, elas nem são notadas.
Mas não se pode viver sem crer. Os deuses são inevitáveis, necessários e imortais. Todos eles. Quando o indivíduo se diz ateu, já está professando um deus. Aquele que ele nega.
Deus existe, mesmo que não exista. Seja como criador do Universo ou criatura da desesperada angústia humana. O deus hebraico, persa, orixá da África ou Tupã do Brasil. Não há homem sem deus. Nem angústia sem sofrimento.
Deus paira impotente no Universo finito da Terra. Cuida do resto e deixa a Terra aos cuidados dos patifes. Tudo sob sua criação.
E negar é uma forma de atestar. Quando o indivíduo nega uma opinião, ele atesta a opinião negada. Até a mentira é uma forma de homenagear a verdade. Ou como disse o Poeta “a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”.
O caráter tem cabresto; o desejo, não. Na compleição do caráter a deformação se dá pela ganância. De poder ou de dinheiro. O desejo independe da vontade.
Pois se é o indivíduo uma consciência universal, o que chamamos de sociedade é a soma disso. Ordenada ou não. Institucionalizada pela lei ou bagunçada pelos egos.
O Brasil vive sob o império da mediocridade individual, cuja soma produz o apequenamento do caráter coletivo. Na cabine onde comandam poderes e órgãos, cada um se exibe no seu pedestal de estultice. Consciências universais menores do que as nozes.
Té mais.
François Silvestre é escritor
Via Blog de Carlos Santos

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